viva os seres vivos

Posté le Mardi 19 janvier 2010

eu estava aqui, sentado no computador, e a caixa dos gatos estava ali na cozinha. resolvi trazer a caixa aqui para perto, para ter a cia dos bixaninos, quando me apareceu a lilith e iniciou uma conversa com os filhotes, eles dentro e ela fora do recipiente de papelão… e eu saquei o que ela queria, ela dizia para eles algo como “vamos passear, quero mostrar para vocês um pedaço do mundo!”, e então eu tirei os três da caixa. os gatos tropeçavam nas próprias patas, haha… ela ficava envolta deles, aqui no quarto, e não parava de falar. muito doido… eu fiquei perto, admirando sem intervir em nada, apenas observando a cena. a lilith foi para a outra sala e chamou eles, e daí baaaah… eles correram pela primeira vez. teve um que deu de cabeça num ferro e depois foi de novo, mas dessa vez se abaixando. foi aí que aconteceu outra coisa incrível. saca. eu, pensando que pudesse ser perigoso, tranquei a passagem da porta que da para a sala que ta cheia de coisas do meu pai. coloquei o banquinho para segurar um pedaço de madeira provisório. então eu sentei no chão e fiquei olhando os gatos e suas brincadeiras espevitadas, brincar de pular nas teias de aranha dos móveis. daí eu percebi que tinha aranhas nas teias de baixo do banco que eu tinha usado. peguei meu chinelo e tirei as teias dali, e matei as aranhas. nessa hora, a lilith foi caminhar ali para o lado da maquina de levar, e ela esfregou o pescoço no canto, limpou das teias de aranha. voltou toda suja de teias, e nem se limpou, foi conversar com os animais, e levou eles para conhecer a comida. ela comeu um pouco, eles olharam, cheiraram e voltaram para correr e caçar teias. depois de uns quinze minutos de agito, ela entrou dentro da caixa, e começou a miar. eles ficaram em volta, exceto um que não saía das teias e ficou completamente branco. coloquei os três na caixa. ela limpou eles, ela se limpou, deitou e os deu de mamar. eu apaguei a luz e saí. acho que depois de eu ter ajudado ela no parto, ela me conta como alguém que está sempre aí para ajudar… foi como um presente!

Marcelo Ferreira @ 0:07
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recapitulando o quarto aniversário de um certo Carpe Diem

Posté le Lundi 21 décembre 2009

as vezes me pego imaginando se jesus ficara puto por ter tido que pagar por erros que não foram seus. e o pior é que não se pode fazer nada. é sempre assim, o fodido se fode e o arregado se arrega, no final tudo vira uma bela pizza sustentada pela auto-prostituição dos seres que entendem que fins não justificam meios, mas meios são um fim em si. viva la revolución! e ave césar monetárius. as flores do mal não são tão métricas quanto as delicadas ondas de progesterona que brotam da boca que recita um drummond ao pé do ouvido. sei que um dia o sol vai nascer diferente e quem ainda tiver olhos se libertará de todo o fel, vida de mel no castelo. casto elo entre o amor e o martelo, a vida é uma rosa que exala seu verdadeiro perfume quando está morta. egoísmo supremo dos homens que aprenderam a usufruir do mundo que foi feito pra seu desfruto. desfrutamos tanto que a fruta já virou merda, e os galhos viraram pesquisa antropogeológica. pobre de mim que penso e penso e, não vendo saída, me iludo num copo de uvas. desfruto o fruto que morre para que eu mate e ja não duvido do sistema de renovação de livros nem das contas a pagar. o mar é grande ilusão, ilusão? viver é imaginar.

Marcelo Ferreira @ 16:16
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Uns quinze minutos pela Av. Mal. Rondon

Posté le Samedi 12 décembre 2009

Eu caminhava apressado e olhando para o reflexo das lâmpadas de sessenta watts respingando sobre aquele asfalto batido por tantos anos e gostando de ver os automóveis que pareciam voar no alto do céu neural da minha mente que simplesmente apreciava a chuva a perturbar os meus pés.

Pensamentos surgiam das caudalosas fontes inesgotáveis como o que parece me falar ao pé do ouvido “bah mas faltou uma expressão ali na frase anterior que fez com que o sentido não ficasse bem como tinha que ter ficado” e logo desapareciam meio a gotículas arremessadas das sarjetas dessa cidade envelhecida e cheia de energias esquecidas - noitariamente - por aí.

Se eu pudesse entrevistar a mim mesmo – neste exato momento de fim de sexta-feira - a pergunta certamente seria “qual cabeleira vermelha não passaria por este caminho sem pensar qualquer coisa ao ver situação tão notoriamente esteticamente apurada antes de arrepiar seus poros ao sentir a brisa massageando sua pele de veludo alternativo?” e como me conheço sei que a resposta seria algo como “a coisa mais normal que eu vivi hoje foi perguntar por que não me dissestes que nós estávamos a comer gente morta? O ex-olhar agora o olhar mudo - recordo ver de meu irmão - então não me peça para salvar o mundo em três minutos.”

Limparás teu óculos, filho meu – escutara tal asneira? e continuava a mover as pernas em movimentos alternados de frenteposição implusionada abaixo daquela chuva e aqueles carros e eu ouvindo minha própria rádio que misturava barulhos de matracas com trechos musicais e conversas amigas e entrevistas fantásticas – será o caminho do oriente ou o caminho do ocidente? qual a tribo deveria encontrar depois de tanta mata desmatar?

Se somos uma bola de lã desenrolada e aleatoriamente dobrada e esticada podemos nos conectar entre tantos bastando nos aproximar – e olha que nem parece difícil a não ser aqui sob tantos postes e seus mini-dias artificiais.

Soube disso porque não foi surpresa ver aquela rua sangrando à avenida que por minutos fora a reta mais perfeita que poderia haver - matematicamente falando – mas não por isso fora a coisa mais animadora que poderia acontecer.

Hoje me lembro e penso que se me arrependi foi porque escolhi e se escolhi foi porque era o melhor porque o melhor sempre acontece e se não aconteceu é porque ainda não está no melhor momento para se arrepender.

O pior é que eu ainda sabia que depois de saciar o pensar ainda poderia me aparecer um amigo ingenuamente a perguntar se a vida teria esses compassos todos tão parecidos progressivamente por ser um lento processo de renovar – ou ainda - se um corpo troca todas as suas células a cada sete dias então uma mente troca todos os seus sistemas lógicos a cada dois anos? ou poderia isso ser apenas a manifestação da nossa provável consciência universal compartilhada durante o incognoscível motivo gerador de todo este caos cadenciado que parece à nossa volta um mundo montar.

Então a chuva cessou e não mais havia reflexos do tungstênio fritando o ar nem pensamentos livres a pipocar porque mais uma vez eu estava naquele lugar de silêncio angustiante e empoeirado com tudo no seu lugar esperando sete dias ou dois anos – até que te tenha meus braços outra vez…

Marcelo Ferreira @ 2:27
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O ombudsman literato

Posté le Dimanche 29 novembre 2009

Depois de clicar em “Publier” fui ler para ver e pensei que se escrevendo eu fosse um pouco mais claro certamente minha cor não mais combinaria com os cabelos enrolados, exceto pela desenfreada falta de vírgulas…

Marcelo Ferreira @ 23:43
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SomoS II

Posté le Dimanche 29 novembre 2009

Uma protuberância abstrata e boçal cai no brecoparlare da nossa consciência felpuda sem distinguir a culpa do culpado que tristonho estende a mão suja aos desertores do coma profundo secular amorfo e destroçado, cortado e lastreado, ferido e malamado. Porque cada vez mais o sentido desvanece perpetuado no vácuo da insignificância feito insígnia pendurada à testa que atesta o bendito fruto da criança a questionar que o mel escorrendo a um sem fim pesar mata ou matará e ainda assim, ou ainda, como assim? Pudera te compreender que te prender compreensão labial e uma solução mais irracional chancelaria nosso retorno ao mar que nos pólos congelou somente na inocência de quem com fé assiste ao mundo com a força da desistência de continuar a tentar, e assim tentamos continuar os movimentos de um Wagner que tantas contradições pode inspirar.

No canto inferior do meu mal campo de visão eu vejo uma flor exótica que morta é como uma lembrança da beleza viva de alguém que agora tão longe pode estar se despindo ou tomando um chá.

Marcelo Ferreira @ 23:33
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#tédio

Posté le Jeudi 26 novembre 2009

as seis e três da tarde do dia 11 de novembro ele entrou no twitter e sem muito pensar escreveu “quando tudo está perdido, ao menos tente se divertir”. meia hora depois, morreu de tédio…

 

 

Marcelo Ferreira @ 0:57
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SomoS

Posté le Jeudi 26 novembre 2009

Somos as migalhas de trigo voando no vendaval do tempo que mais parece estático, um estático não mudar alterável apenas pelo choque c'algum outro que por breves instantes parece estar rumo ao nosso mesmo fim indefinido - ó rua tão miserável és que por mim me chamas apenas por atenção, miserável de coração. com couro me feres pelas costas - infiel. teu suco que já beijou carvalhos hoje se esvai em minha goela a te saborear, enquanto estás aqui do lado - quantas tormentas precisarei enfrentar até que eu possa ser consumido como diz a curta linha da vida que corta minhas mãos da base às laterais polegares de dois circulos twice twist, um vento que me acorda ou um choro que me arpeja como a música. ah, a música, a música são as ondas deste deslizar despiedoso de culpas e sorrisos coloridos e mais duas ou três coisas necessárias para a hegemonia da demasia humana desenhar todo o resto, numa brincadeira rodopiante de sorrisos amarelos como girassois, girassois assim mesmo como a abstração manifesta-se ao seu natural construído, tabula rasa. eis um termo peculiar para ser hipergrafado no suporte de difusão desta bagunça a la no me questione. apreender a vida é um tanto diferente de ler um resumo ou cruzar a estrada ou dizer eu te amo ou comprar um castelinho na serra e a facilidade da flor em murchar depois de morta é proporcionalmente inversa à nossa capacidade de compreender a sequência de bagunças e ligeiramente menor  do que a energia que pode concentrar um par de mãos a proporcionar sensações extasiante, seja lá com que merda for. Ou então, caímos numa corrente de água que escorre rio adentro e nos dissolvemos na imensidão deste universo em expansão, ou algo que o valha…

 

Marcelo Ferreira @ 0:44
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Último show de Raul Seixas em Porto Alegre

Posté le Jeudi 27 août 2009

Em julho de 1989, poucos dias antes de morrer, Raul Seixas fez um show em Porto Alegre, ao lado de Marcelo Nova, ex-integrante da banda Camisa de Vênus. A reportagem a seguir traz o depoimento de dois fãs que compareceram ao lendário show, sendo um deles, uma menina de 14 anos na época, a única pessoa a entrar no camarim e conversar com o músico. O audio conta ainda trechos do show, que foi transmitido ao vivo pela Rádio Ipanema. Destaca-se o estado de saúde debilitado de Raul e o sentimento dos fãs de que aquela sería, provavelmente, uma das últimas apresentações do músico.

Ná época em que fiz a reportagem, ela faria parte de um projeto acadêmico na Unisinos que acabou não acontecendo. Lanço-a agora por ocasião dos 20 anos de morte de Raulzito, como uma espécie de homenagem ao pai do rock brasileiro.

Aproveito para agradecer a todos os que colaboraram com a realização deste material. Então, clica e ouve…

http://podcast.br.inter.net/podcast/marceloefe

 

 

Marcelo Ferreira @ 12:27
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à loucura

Posté le Mercredi 22 juillet 2009

trancado em sua cela mental Ucat Atalpa pensava que a loucura é a dádiva maligna do líder que dos céus precipita a cabeça dos comandos que dela brotam com 54 fábricas alheias ao suor sangrado de cristo no monte d’onde seres que não mais se reconhecem emburricam-se nos avatáres da sua mente que dizem ser disfuncional.

Marcelo Ferreira @ 23:01
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Ao amigo

Posté le Mardi 7 juillet 2009

Empilho palavras porque não tenho respostas

Apunhalam-te pelas costas

Na barriga milho e farinha do startar dialético

Das milhares de pessoas com pena de

Galinha com talheres mulheres tristes

Na aflição envolvendo como poças

Timbres que livres ecoam, espalhando,

Leves como quiseres, o vento cessou eu digo

Não tenho respostas, amigo

Marcelo Ferreira @ 20:52
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Carnivórium

Posté le Samedi 27 juin 2009

Te judiava com flores quando o teu céu se tornou pleno e teus magníficos suspiros de um enrolar de corpos que se maltratavam soaram como Vênus a meus pés. Os espinhos eram carne marcada com o néctar da qual bebiam os deuses em orgias de trinta noites infinitas. Os estridentes sussurros que de ti brotavam eram como o das harmônicas tocadas pelos anjos maltrapilhos de uma noite bem vivida, indo e vindo como fazem os viajantes que encontram deusas abandonadas em cantos de bar. Tais flores eram carnívoras e já previam te devorar antes mesmo de estarem sobre o macio da tua pele como o das sedas que adornavam os templos do Monte Olímpo. Ao te envolverem as pétalas, teus sussurros passaram a soar como pequenos mas intensos espasmos de desconfiança. Quando os espinhos começaram a apertar afiados as pontas na tua carne trêmula, teu esperneio foi acompanhado de sons como o de uma gaita solitária em um longo solo de um blues das gélidas montanhas do sul do país. Era Vênus sangrando prazer entre meus dedos enquanto eu a mordia, te mordia como uma suculenta pêra já entregue ao seu inevitável fim. Morreu ao ser consumida por mim, pouco antes de eu voltar a dormir por mais uma eternidade nos teus sonhos mais profundos…

Marcelo Ferreira @ 0:23
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Tequila

Posté le Jeudi 25 juin 2009

comer pimenta faz tri bem à saúde.

a substância que causa a ardência tem várias propriedades e ainda melhora a vida de quem mora em lugares que faz calor.

por isso os mexicanos e as pimentas.

acho que pimenta reduz os anticorpos contra a gripe.

principalmente contra as do vírus de origem cruzada entre os tipos humanos com de animais.

aposto que os Estados Unidos tem uma multinacional que produz pimenta no México.

preciso de uma aspirina.

Marcelo Ferreira @ 1:26
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O grade sofrimento do homem moderno

Posté le Lundi 15 juin 2009

A única mulher a quem jurei meu amor

Me trocou por uma flor

O lesbianismo não está a meu favor

Marcelo Ferreira @ 23:45
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No dia em que te conheci antes de te ver

Posté le Vendredi 12 juin 2009

Nem Sou é o meu nome, disse ao entrar no taxi vermelho-alaranjado antes de registrar a solavancos e grunhidos que ninguém possui a certeza de que isso aqui é o que há de mais sublime, apontando para a vida dos andarilhos apressados na alameda ao lado do veículo em movimento. Já aprendi a esperar não respostas como da vez que, reduzido a notícias autocensuradas e entupido como uma barragem de problemas irrisórios, avisei àquela menina da sua bolsa aberta e em troca recebi apenas perfumes nobres que levaram minhas artérias ao ápice elástico adrenérgico e nada mais. De ouvidos moucos, nem percebi as palavras daquela mulher daquele homem que dirigia o veículo com a fúria da garota que pensava que era apenas mais um falando do sexo dos anjos em troca do seu. Sem obter a resposta de ninguém eu paguei a corrida e, ao descer do carro, me deparei com ela e seu perfume tão peculiar e sua bolsa aberta me questionando enfurecidamente se quem ele via realmente era sou eu. Nem Sou, respondi.

Marcelo Ferreira @ 23:34
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O índie-autocrítico

Posté le Mercredi 10 juin 2009

Sinto o ar que entra nos meus pulmões apertar minha consciência contra meus instintos e sozinho descubro formas de defesa contra minha força de vontade. E é justamente por isso que eu confio somente no meu sistema nervoso.

Marcelo Ferreira @ 0:43
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Os maltratados pés de Lilith D.

Posté le Mercredi 10 juin 2009

A mulher caminha, solitária, sobre a terra ressecada da cidade fundo do coração dilacerado.

Olha com desconfiança para os lados à espera de um que a liberte do amor que dói enquanto o sol se põe no horizonte e morra às três da manhã num quase flagelo soturno de uma noite sem rumo em meio a perversos auto-pensamento.

Perversos até na hora da morte ao recordarem de um não-futuro, um além-feliz que só existe na eternidade de jamais, sendo a palavra ou o sentimento não carregáveis pela tal armadilha do aceleramento inconsciente da projeção de sombras que por natureza jamais emitirão sua própria luz.

Uma vida inteira de alguns dias caminhando em direção alguma, cega, surda, o prazer lhe fugiu às entranhas.

Ela mesmo, a mulher, se pergunta se um dia o vermelho vida vai bater-lhe forte na face ruborizada, trazer vida aos jardins(?)

Penso no circular de torrenciais ondas sanguíneas e pedido ao toque mesmo sem querer que adormecidos aguardam no mais profundo da necessidade de se autoquestionar e condenar.

Sim, respondo então, quando tomo um gole do meu café extraforte e olhando-a na imensidão perdida dos seus olhos eu digo, até quando voltares a chorar outra vez…

Marcelo Ferreira @ 0:35
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Logo depois de pedir a tal dose

Posté le Samedi 27 décembre 2008

Foi quando ele falou, logo depois de pedir a tal dose à garota que insistia em roubar-lhe a atenção:

- Um café, um pecado e uma anedota. Ah, sem gelo…
- Anedota? – pediu confirmação.
- Isso, anedota. Mas essa é a parte menos importante – respondeu já desarmado e com os olhos fixos em sua boca torturante.
- Original – disse ela com um sorrisinho à francesa.
- Nada pode ser mais original do que o meu desejo de sentir teu corpo perto do meu.
- Fala de novo? – solicitou em meio ao som da noite.
- Quanto é? Foi o que eu perguntei – quase gritando.
- Custam dois pecados.
- Ah é? Pecamos tomando um café?
- Cara, você é uma anedota – disse anedota com uma entonação que sugeria a entrega, jogo vencido.
- Sou é? Ah, sem gelo, por favor.

Marcelo Ferreira @ 20:04
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Mini-conto de domingo

Posté le Mardi 25 novembre 2008

Saí da Redenção, atravessei a João Pessoa e entrei no Bar Van Gogh.
Me frustrei, pois não tinha sopa de orelha…

 

Marcelo Ferreira @ 23:55
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É do Mais que se alimenta a dúvida

Posté le Jeudi 24 juillet 2008

Cansado, mas ainda com forças para encarar a subida necessária para a cura que escura vestia-se de cores jamais iluminadas, alcei-me para dentro do ônibus quase lotado que cortava a cidade a quilômetros por hora. O frio que não fazia no interior do coletivo carregado de pessoas cansadas babando sobre suas pernas ansiosas e sem rumo adornadas de jeans comprados com o seu nada valioso tempo de vida compensava, mesmo que de forma falsa e superficial, a falta do calor lascivo de outrora.

Perdido entre sons chorosos de um fone de ouvido que musicava meu vídeo-clipe particular eu avistei um banco carente de companhia humana e propus-me ser o seu amigo de viagem. (Hoje sei que este foi o meu erro seminal e não mais me proponho, e quando o faço é por graça – ou sonho em não mais ou mais ainda, sonho que todos não proponham mais nada a ninguém, ou que ninguém proponha nada a todos – mas deparo-me sempre com a maldita relativização redentora) Enquanto admirava o mundo ficando para trás nos prédios sujos e nos lares que nem percebo, eu sentia como a praia inundada na ressaca os quilos de um sofrimento inocente há pouco burlado pelo prazer de sussurros e gemidos no ouvido – suficientes para despertar o desejo de fugir eternamente ao lúdico mundo da loucura sexual – suficientes mas não o bastante.

Então a música que eu ouvia me fez chorar essa dor silenciosa e anestésica, que por momentos consegue fazer-me calar asneiras por uma falha pessoal dessas que atropelam o próprio filho que brinca com sua bola em frente ao carro do papai numa ensolarada tarde de domingo. Porque eu não sei mas as vezes, como nessa, me falta o ar – e nos falta a palavra, então penso em falar do silêncio ou de qualquer coisa que preencha a distância eterna que existe entre nós, e cada vez mais intensos os sons em ritmos quebrados que não sei explicar e por isso me são os mais encantadores, mais intensos e doentios produzem caretas na minha expressão cansada que resistiu e subiu as escadas do ônibus após juntar suas últimas forças, minhas forças querendo, óbvio, chegar em casa e morrer na cama.

Olho ao redor, aquele velho, cabelo esbranquiçado e esculhambabo, óculos de grau, camisa com listras neutras na vertical, na sua mão um CD que eu não consegui identificar mas consegui perceber ser comprado em loja, original de trinta e poucos reais – pensei e logo esqueci. O velho na qual tive vontade de perguntar-lhe sobre a vida contemplava seu CD com os olhos escondidos atrás das lentes, e como uma criança descobrindo uma nova textura aveludada de uma fruta silvestre desconhecida e exótica ele acariciava vagarosamente a capa do disco com a mão que lhe restava livre. Eu, há… eu precisava contar a ele minha admiração mas calei-me.

Aquela música me perturbando a noção do real e aquele velho pitoresco com olhar sublime para sua compra e aquele sofrimento mudo que cada vez mais me perseguia e as pessoas enjoadas de estarem ao meu redor e eu enlouquecendo a toa por tudo – decidi parar. Tentei escutar o que meu amigo de viagem banco insistia em me dizer de uma forma direta e sem interferência sensorial, mas não o compreendia. No fundo eu sabia sim o que queria o amigo passageiro. Queria acabar com tudo através de mim, e confesso que achei a solução proposta um tanto fácil e tentadora.

Mas ele não conseguiu, hahaha… e até hoje eu sinto vontade de rir quando me lembro da sua decepção ao me ver dormindo babando sobre minhas pernas assim como todos os que voltavam do seu trabalho naquela terça-feira fria e ventosa. Dormi porque me aceito como ser que é só mais um e nada além – apesar de ser justamente neste maldito ‘mais’ que eu acabo me perdendo, sempre…

Marcelo Ferreira @ 0:59
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Lugar algum

Posté le Jeudi 17 juillet 2008

Ao som de Piazzola e Morphine, e encharcado de whyskey de primeira e cigarros de terceira, concebi estes desafetos que não passam de mentiras sinceras auto-associativas - ou como diriam alguns amigos meus, coisa de doente

 

A avenida majestosa tentava lhe impor sua magnitude, mas ele sabia ser maior. Desde que pegara sua bicicleta empoeirada no galpão de objetos velhos, desses onde se guardam velharias por uma espécie de apego franciscano, sabia ser capaz de vencer qualquer estrada que tentasse impedi-lo de ir em frente. Seus pés macios que deslizavam pelo mundo como nuvens atravessando uma longa planície seca e quente acompanhavam seus olhos, testemunhas do mundo acontecendo à sua volta, provocando lembranças de infância onde ele… – quando, de repente, lhe desperta uma nostalgia delirante como se fosse uma frase solta jogada sobre a linearidade óbvia e sensata contida em todo olhar fácil e despreocupado que nada sabe. Aquele cheiro de eucalipto era como o do ano em que descobriu ser mal assombrada a casa do vizinho da esquina onde jogava futebol com os amigos. Auto-ordenou-se dar o melhor chute de sua vida e fazer a bola entrar suave no canto onde jamais alguém defendeu ou defenderia - porque ele sabe que a realidade tem pequenas brechas por onde pessoas de grande sensibilidade agarram o impossível e o atiram em algum canto qualquer de desprezo fingido, esperando o desabrochar da dor que alimentará seu desespero – cultuando o caos barato. Ultrapassou o táxi vermelho que jazia fumaceando atrás do sinal vermelho quando, como um peixe de azar, sentiu-se preso à rede que tanto lhe fizera sonhar nas noites geladas de solidão do seu quarto preparado para o calor da vida. Quem jogara a rede, faminto na barriga ou no bolso, puxava-a com a força de um Golias, mas ele, um Davi, venceria – sabia. Após batalhar liberdade, pedalou em direção ao horizonte cinza – queria encontrar o bilhete amaldiçoado pelo amor esvaziado na dualidade do seu ego. Cuidava apenas de não desgrudar os olhos do chão umedecido pelo orvalho opaco da noite e por isso enxergava listras transpassando os raios de sua roda dianteira – cores contrastando se completando na diferença – como aquelas que saem ao deslizar do giz de cera sobre o papel escolar e que fazem tremer o coração de forma única e desconhecida pelos colegas na classe de artes da quinta série, época onde todos já aprenderam que o homem não chora – óbvio. E mesmo, nunca ia querer que por mais uma vez sua lágrima o afogasse dentro de seu próprio rio de convicções, identidade e sonhos. Desviou da faixa laranja que insistia em confundir sua certeza. A certeza infantil com que se impôs a frase invasora – entre hífens inúteis – entre palavras vazias e sabores artificiais. Cansado, parou para tomar o suco de limão em frente a uma casa de papel toda rabiscada. Depois de ter a aprovação final do seu olfato, deixou-se saturar o sentido da visão que se perde meio a tantas informações brilhosas e coloridas. Os eucaliptos perfumados balançavam ao vento de seu vil infanto-prazer cítrico limonada sem açúcar – doce ilusão. Mas era tarde e dobrou a esquina – virou para o lado e beijou sua garota de pele sedosa. Antes de sonhar, pôs a mão embaixo do travesseiro e certificou-se da existência daquele papel tão procurado durante a juventude – tão desejado e hoje ali, objetivo cumprido, e amanhã o que lhe diria aquela casa de papel com tantas palavras escritas nas paredes e tão pesada quanto um carregado cartão postal nostálgico e saudosista? Cansado outra vez, voltou para casa, jogou sua bicicleta de qualquer jeito ao lado de uma prateleira apropriada por colônias de mofos verdes musgos esbranquiçados, e morreu – sem cores sem companhia a não ser a sua, a pior – cruelmente sincera. Na manhã seguinte o sol quente no rosto o ressuscitaria e jamais avenida alguma o faria desistir, mesmo que o seu destino seja chegar sempre a lugar algum…

 

Marcelo Ferreira @ 8:51
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